Reeleição de Lula gera incerteza na Argentina e derruba mercados

Destaques
- •Reeleição de Lula causa volatilidade nos mercados argentinos e brasileiros, com queda de ações e títulos.
- •Desvalorização do real brasileiro eleva o dólar na Argentina e ameaça competitividade das exportações argentinas.
- •Argentina pode atrair capitais em busca de alternativas regionais, mas depende de disciplina fiscal e previsibilidade.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil gerou uma nova onda de incerteza na economia argentina, impactando negativamente os mercados financeiros. A vitória do presidente, com 51,77% dos votos, alterou as expectativas de investidores que apostavam em uma mudança de orientação política e econômica no principal parceiro comercial da Argentina. Como consequência, ações e títulos soberanos argentinos registraram quedas, o risco-país aumentou e o dólar atingiu uma nova máxima anual. A desvalorização do real brasileiro também acendeu um alerta sobre a competitividade das exportações argentinas.
Mercados em Queda e Risco-País Elevado
O fundo de índice EWZ, que replica o desempenho das principais empresas brasileiras, chegou a cair cerca de 27% em dólares. O real se desvalorizou frente ao dólar, levando investidores a reavaliarem suas posições. Essa movimentação se refletiu nos ativos argentinos: o índice MSCI Merval recuou cerca de 6,7%, e certificados de ações de empresas locais negociados em Nova York, como a Mercado Livre e bancos, registraram perdas expressivas. Os títulos soberanos argentinos em dólares também atingiram novas mínimas do ano, e o risco-país avançou para a faixa de 738 a 745 pontos-base.
Eric Ritondale, economista-chefe da Puente, atribuiu a reação a um cenário regional de maior aversão ao risco, que levou investidores a reduzir sua exposição a mercados emergentes. O dólar no mercado atacadista argentino atingiu 1.540 pesos, refletindo tanto a fraqueza do real quanto a política do Banco Central de acomodar a volatilidade externa. Essa reação anulou o alívio observado após o primeiro turno das eleições brasileiras em outubro.
Oportunidades e Desafios para a Argentina
Estrategistas do Grupo IEB apontaram que a volatilidade regional pode se transformar em uma oportunidade para a Argentina. Se a percepção de incerteza no Brasil aumentar, investidores podem buscar alternativas na região. Para atrair esses capitais, a Argentina precisa manter a disciplina fiscal, consolidar a desinflação e oferecer previsibilidade nas regras econômicas.
Representantes do IEB sugeriram que a Argentina poderia adquirir maior relevância estratégica para investidores internacionais, especialmente nos setores de energia, mineração, agroindústria, infraestrutura e serviços financeiros, caso o Brasil seja percebido como menos previsível. O governo argentino poderia avaliar reduções de impostos, desde que compatíveis com o equilíbrio fiscal, para estimular o crescimento e a geração de empregos.
Impacto nas Exportações Argentinas
A desvalorização do real brasileiro pode dificultar o fluxo comercial entre os dois países, tornando produtos argentinos relativamente mais caros para compradores brasileiros. Nos primeiros nove meses de 2026, as exportações argentinas para o Brasil somaram US$ 9,789 bilhões, com crescimento de 4,5%. No entanto, a queda do real pode comprometer a competitividade, especialmente de produtos manufaturados industriais, que representam 64% das vendas argentinas para o Brasil.
Gustavo Perego, da consultoria Abeceb, destacou que o setor automobilístico, responsável por cerca de 50% do comércio do Mercosul, pode ser ainda mais afetado pela evolução da atividade econômica do que pelas oscilações cambiais. A expectativa de desaceleração do crescimento econômico brasileiro para cerca de 1% em 2027 também adiciona preocupação, pois uma expansão mais fraca reduziria a demanda por importados.



