Tecnologia & Negócios06 de nov.
IA no Judiciário: Dados e Segurança Lideram Prioridades de Investimento
A organização dos dados é o maior gargalo para o avanço da inteligência artificial (IA) no setor público brasileiro, e a tecnologia deixou de ser uma área de suporte para se tornar o centro da estratégia das instituições. Essa avaliação foi feita por Ademir Piccoli, CEO do Judiciário Exponencial, durante o evento IT Forum Na Mata CIO, focado em setor público e cibersegurança.Piccoli destacou que a jornada dos dados é a pauta atual, sendo considerada uma questão de negócio, e não apenas de tecnologia. Ele relembrou que a Lei 11.419, de 2006, iniciou a modernização da Justiça com a digitalização, processo que foi acelerado pela pandemia, resultando em aproximadamente 100% dos processos digitalizados em 2020 e 2021, um avanço estimado em dez anos em apenas dois.O volume de processos e a esperança na IAO Brasil enfrenta um desafio considerável com 75 milhões de processos em estoque no Poder Judiciário, com um tempo médio de julgamento de 1.263 dias. A inteligência artificial é vista como a grande esperança para otimizar esse cenário, mas sua efetividade depende diretamente da organização dos dados.Piccoli citou a base nacional do Poder Judiciário, o Datajud, que reúne quase 15 bilhões de documentos e conecta 92 tribunais, permitindo um acompanhamento em tempo real, diferentemente do relatório Justiça em Números, publicado anualmente. A Defensoria Pública de São Paulo também foi mencionada, com 6 milhões de atendimentos virtuais via WhatsApp, antes realizados presencialmente.Depósitos judiciais e o dinheiro paradoUm ponto crítico levantado foi o montante de cerca de R$ 800 bilhões em depósitos judiciais aguardando decisão. Desse valor, 10%, o equivalente a R$ 80 bilhões, refere-se a processos já julgados, mas cujo dinheiro não retornou à economia devido a informações perdidas, falecimento do advogado, processos de sucessão ou falta de busca pelos beneficiários."É duas vezes o orçamento do Bolsa Família. Esse dinheiro, se liberado, geraria emprego e renda na economia. Não se trata de julgar mais processos, mas de resolver os que já foram julgados", afirmou Piccoli, ressaltando o potencial impacto econômico da liberação desses fundos.IA e segurança lideram prioridades de investimentoUma pesquisa realizada pelo Judiciário Exponencial com cerca de 300 instituições do ecossistema de justiça indica que IA e agentes aparecem como principal prioridade de investimento para 2026, com 85% das menções, seguidas por segurança da informação (64%). O setor de justiça investe cerca de R$ 20 bilhões por ano em tecnologia.A segurança da informação deixou de ser uma questão restrita à área técnica, tornando-se uma prioridade nacional, especialmente após casos recentes de sequestro de dados em tribunais, como o do Superior Tribunal de Justiça. Piccoli questionou como as instituições públicas devem lidar com pedidos de resgate.O perigo da pressa na adoção de IAPiccoli alertou sobre a ânsia em lançar projetos de IA sem a devida preparação da base de dados. Ele citou estudos que apontam a qualidade e a disponibilidade dos dados como as principais barreiras para o sucesso da IA em organizações públicas.Ele observou que a pressão sobre os líderes de tecnologia leva magistrados e promotores a desenvolverem suas próprias soluções com IA, o que exige que a área de TI atue com governança, e não com bloqueio. "A área de TI não pode mais dizer ‘não pode’. Se os líderes de tecnologia não se posicionarem como protagonistas, serão atropelados pela área de negócio. Isso já está acontecendo", disse.Para que a agilidade seja desenvolvida sem colocar dados em risco, Piccoli apontou três pilares essenciais: treinamento, governança e formação de liderança. Ele concluiu com um recado sobre postura profissional: "Pessoas boas de desculpa não têm mais espaço em nenhuma empresa. Não fez? Assuma, mas cuide de fazer da próxima vez."O que diz a pesquisaDois estudos recentes abordam a inteligência artificial no setor público. Um artigo publicado na Revista ft em 2026, intitulado "Inteligência artificial na gestão pública: potencialidades, desafios e perspectivas para a eficiência dos serviços públicos", analisa como a IA pode modernizar a gestão administrativa, otimizar recursos e melhorar a entrega de serviços. A pesquisa, uma revisão narrativa da literatura, indica que a IA pode reduzir tarefas repetitivas e aumentar a capacidade de processamento de informações, mas seu sucesso depende de infraestrutura adequada, qualidade de dados, treinamento profissional, transparência algorítmica e supervisão humana.Outro estudo, "Inteligência artificial como problema público: proposta de agenda multidimensional para a administração pública", a ser publicado na Revista de Administração Pública em 2026, propõe entender a IA como um problema público multidimensional, cujos efeitos impactam capacidades estatais, regulamentação e direitos. A partir de uma revisão integrativa da literatura, o artigo constrói um referencial analítico e uma agenda de pesquisa para sistematizar dilemas e orientar investigações futuras, reposicionando a IA como uma questão de governança e justiça social.