Proteína BACH2 pode abrir caminhos para tratar anemia falciforme e talassemia

Destaques
- •Pesquisa com mais de 28 mil pessoas identificou a proteína BACH2 como reguladora da hemoglobina fetal.
- •A descoberta abre novas frentes para o desenvolvimento de tratamentos para doenças hereditárias do sangue.
- •Próximos passos incluem testes em modelos animais e estudos em humanos para avaliar segurança e eficácia.
Uma pesquisa genética com mais de 28 mil pessoas identificou um mecanismo crucial para o tratamento de doenças hereditárias do sangue, como a anemia falciforme e a beta-talassemia. O estudo, publicado na revista científica Nature e com participação de pesquisadoras brasileiras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), revelou o papel da proteína BACH2 na regulação da hemoglobina fetal, uma forma de hemoglobina presente durante a gestação e que pode amenizar os efeitos dessas doenças.
A proteína BACH2 atua como um "freio" na produção de hemoglobina fetal. Ao reduzir a ação dessa proteína em células cultivadas em laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção de hemoglobina fetal. A imunologista Ester Sabino, da FMUSP, explica que já se sabia que níveis altos de hemoglobina fetal durante a vida uterina melhoram o quadro de anemia falciforme. O aumento promovido pela descoberta da atuação da BACH2 pode, portanto, ajudar a amenizar os efeitos dessas doenças.
Como funciona o mecanismo identificado
A hemoglobina é a proteína nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio. Durante o desenvolvimento, a hemoglobina fetal é substituída pela forma adulta. Em pessoas com anemia falciforme, a hemoglobina adulta tem funcionamento anormal, deformando os glóbulos vermelhos. Já na beta-talassemia, há produção reduzida ou ausente de uma parte da hemoglobina adulta.
Aumentar a produção de hemoglobina fetal é uma estratégia terapêutica de interesse para essas condições. O estudo investigou os mecanismos genéticos que regulam essa produção e identificou a BACH2 como um fator que a restringe. Uma variante genética associada a níveis mais altos de hemoglobina fetal demonstrou reduzir a expressão de BACH2. Experimentos em laboratório confirmaram que a redução ou inibição dessa proteína também aumentou a expressão da hemoglobina fetal.
Análise genética e experimentos funcionais
Para investigar os fatores genéticos, os pesquisadores analisaram dados de 28.279 pessoas de diferentes ancestralidades, identificando 91 associações genéticas. Uma dessas regiões revelou uma variante ligada a níveis mais elevados de hemoglobina fetal e à redução da expressão de BACH2. "Em estudos genéticos, para que se chegue a descobertas, é necessário um grande número de pessoas, de populações de lugares diferentes", analisa Sabino.
A partir dessa pista, a equipe realizou experimentos funcionais para confirmar o papel direto da proteína na regulação da hemoglobina fetal. A combinação de dados genéticos e experimentos funcionais foi essencial para relacionar a variante identificada à atuação de BACH2. Os resultados reforçaram a relação e esclareceram o mecanismo biológico.
Combinação de estratégias e próximos passos
O estudo também explorou a relação entre BACH2 e BCL11A, outro regulador conhecido da hemoglobina fetal. Os experimentos indicaram que essas proteínas atuam por mecanismos independentes. A redução simultânea de BACH2 e BCL11A resultou em um aumento da hemoglobina fetal superior ao obtido com a redução de cada uma isoladamente, sugerindo que atuar sobre diferentes mecanismos pode ser promissor.
Apesar do potencial, a descoberta ainda precisa de avanços. Os pesquisadores alertam que os experimentos em laboratório não garantem segurança ou eficácia em pacientes. "Esse é só o primeiro passo. Depois que a gente entende esses mecanismos, é preciso testar inicialmente em modelos animais e, depois, realizar estudos em humanos para só então desenvolver um tratamento seguro", finaliza Ester Sabino.



