Excesso de exercício altera dopamina no cérebro, aponta estudo brasileiro

Destaques
- •Estudo com camundongos revela que treinos intensos e prolongados elevam dopamina no hipocampo, área ligada à memória e emoções.
- •Alterações químicas no cérebro podem explicar a síndrome de overtraining, caracterizada por fadiga crônica e perda de desempenho.
- •Pesquisadores buscam identificar biomarcadores em humanos para diagnosticar e prevenir o problema, que afeta saúde mental e sono.
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e publicado na revista científica Neuroscience revelou que o excesso de exercícios físicos pode alterar a regulação química do cérebro, mantendo elevados os níveis de dopamina mesmo durante o descanso. A dopamina é um neurotransmissor essencial para a sensação de prazer, satisfação e estado de alerta.
Os experimentos foram realizados com camundongos submetidos a diferentes protocolos de atividade física. Cientistas observaram que animais expostos a semanas de treinamento intenso apresentaram níveis elevados de dopamina e da enzima tirosina hidroxilase (responsável pela produção do neurotransmissor) 48 horas após um teste de desempenho. Essa alteração ocorreu na região do hipocampo, associada à memória e às emoções, e não a sistemas motores.
O que diz o estudo sobre a dopamina
Alisson Luiz da Rocha, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Michigan e primeiro autor do estudo, explicou que o excesso de treino alterou os níveis de dopamina no hipocampo. Ele destacou que, diferentemente do esperado, a serotonina, neurotransmissor frequentemente associado à fadiga central, não apresentou mudanças significativas.
Segundo os pesquisadores, o problema não reside na dopamina em si, mas em desequilíbrios na sua regulação, com níveis permanecendo altos em momentos em que o organismo deveria estar em repouso. As hipóteses para esse aumento incluem a adaptação do cérebro ao estresse repetido, inflamação causada pelo treino excessivo e interferência no relógio biológico.
Síndrome de Overtraining e suas consequências
Os resultados podem auxiliar na investigação dos mecanismos cerebrais por trás da síndrome de overtraining, condição associada ao excesso de treinamento e caracterizada por perda de desempenho, fadiga crônica, dores musculares e aumento do risco de lesões. A relação entre as alterações químicas observadas e sintomas como ansiedade e distúrbios do sono ainda precisa ser investigada.
O estudo não avaliou diretamente esses sintomas nos animais nem comprovou que o mesmo mecanismo ocorre em seres humanos. No entanto, Rocha sugere que, se a dopamina estiver alta durante o repouso, o sono pode ser prejudicado, o que, por sua vez, afeta a recuperação, o humor e o desempenho. Isso pode criar um ciclo vicioso em atletas, que treinam ainda mais para compensar a queda de rendimento.
Limitações e próximos passos da pesquisa
Apesar das semelhanças entre camundongos e humanos em relação à dopamina, serotonina e hipocampo, o estudo possui limitações. Rocha aponta que a síndrome de overtraining envolve sintomas relatados pelo indivíduo, algo não diagnosticável em animais. Além disso, o modelo utilizou camundongos machos, e a dosagem de dopamina foi feita no tecido cerebral, podendo haver diferenças no funcionamento em tempo real.
O estudo também não definiu um intervalo de descanso ideal para evitar alterações semelhantes em humanos. Nos animais, o próximo passo será aprofundar o estudo dos mecanismos de afetação cerebral pelo excesso de treino e identificar sinais no sangue para diagnóstico e prevenção. Em humanos, a pesquisa envolverá o acompanhamento de atletas com testes de desempenho, questionários de humor, monitoramento do sono e exames de sangue.
Rocha reitera que, embora o exercício seja benéfico, o excesso sem recuperação adequada pode ser prejudicial à saúde mental e física.



