Mito sobre pés frios e cólicas menstruais desmistificado pela ciência
Destaques
- •Crença popular de que andar descalço no frio causa cólicas menstruais não tem comprovação científica.
- •Causas das cólicas são biológicas e hormonais, relacionadas à produção de prostaglandinas.
- •Calor local pode aliviar a dor, mas crenças não devem impedir busca por diagnóstico médico para dores intensas.
A ideia de que andar descalço no chão gelado pode resfriar o útero feminino e, consequentemente, causar dores menstruais é um mito sem comprovação científica. A medicina tradicional chinesa associa o aquecimento dos pés ao "útero quente", mas a ciência moderna explica que as cólicas menstruais têm origens estritamente biológicas, hormonais e anatômicas. Elas são desencadeadas pela produção de prostaglandinas, substâncias inflamatórias que estimulam as contrações do músculo uterino.
O corpo humano possui mecanismos eficientes de autorregulação térmica. Os órgãos internos, incluindo o útero, mantêm uma temperatura estável em torno de 36 °C a 37 °C, independentemente das variações de temperatura externa ou do uso de calçados. O útero está localizado na cavidade pélvica e é protegido por isolamento físico e vascular, garantindo sua temperatura.
Como o corpo se protege do frio?
Em dias frios, o organismo prioriza a manutenção da temperatura dos órgãos vitais e reprodutivos. Isso ocorre através da vasoconstrição periférica, um processo onde os vasos sanguíneos das extremidades, como os pés, se estreitam. Essa ação faz com que os pés fiquem frios, pois o corpo está direcionando o calor para órgãos mais essenciais.
O ginecologista e obstetra Sérgio Floriano, docente na Universidade São Judas, explica que o cérebro comanda essa resposta. "É por isso que seus pés ficam frios: o corpo está sacrificando o calor deles para manter o útero aquecido", afirma.
Crenças populares versus evidências científicas
A associação entre a temperatura das extremidades e a saúde reprodutiva tem raízes em tradições antigas, como a medicina tradicional chinesa, que vê a circulação de energia nas extremidades. Pesquisas recentes têm explorado a percepção do frio e a dor, mas sem estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Um estudo observacional de 2023 em Taiwan associou a sensação de extremidades frias à dismenorreia (cólicas menstruais). Outra pesquisa com 419 mulheres ligou o consumo de bebidas geladas no inverno a dores mais intensas em pacientes com sensibilidade térmica. No entanto, a ginecologista e professora Cláudia Lima ressalta a cautela:
"São estudos observacionais que identificam associações, mas não demonstram uma relação de causa e efeito."
Ela reforça que, até o momento, não há evidências científicas suficientes para comprovar que pés frios resfriam o útero ou causam cólicas.
Alívio da dor e sinais de alerta
Embora o frio nos pés não seja a causa das cólicas, a aplicação de calor local na região abdominal para aliviar o desconforto tem respaldo científico. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2018 confirmou os resultados favoráveis da terapia térmica para o alívio da dismenorreia.
Especialistas alertam que crenças populares não devem substituir a investigação médica adequada. Desconfortos intensos que impedem as atividades diárias podem ser indicativos de condições como endometriose, miomas uterinos, adenomiose ou doença inflamatória pélvica.
"Tomar uma bebida quente ou manter os pés aquecidos são atitudes que podem proporcionar conforto. O problema começa quando uma crença atrasa a procura por atendimento médico", alerta a ginecologista Cláudia Lima.



