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Mito: andar descalço no frio não causa cólica menstrual

28 de outubro de 2026

Destaques

  • •Crença popular de que pés frios afetam o útero e causam cólicas menstruais é desmistificada pela ciência.
  • •Causas biológicas, hormonais e anatômicas, como a produção de prostaglandinas, são as verdadeiras responsáveis pelas dores menstruais.
  • •Calor local na região abdominal pode aliviar cólicas, mas dores intensas requerem investigação médica para descartar condições como endometriose.

A ideia de que andar descalço no chão gelado pode resfriar o útero feminino e, consequentemente, causar dores menstruais é um mito sem comprovação científica. A medicina tradicional chinesa associa o aquecimento dos pés ao "útero quente", mas a ciência moderna explica que as cólicas menstruais têm origens estritamente biológicas, hormonais e anatômicas. Essas dores são desencadeadas pela produção de prostaglandinas, substâncias inflamatórias liberadas pelo endométrio que provocam contrações no músculo uterino.

O corpo humano possui mecanismos eficientes de autorregulação térmica que mantêm a temperatura dos órgãos internos estável, em torno de 36°C a 37°C, independentemente das condições externas. O útero, localizado na cavidade pélvica, é protegido por isolamento físico e vascular, garantindo sua temperatura ideal. Em dias frios, o organismo prioriza o aquecimento dos órgãos vitais e reprodutivos, o que pode levar à vasoconstrição periférica, fazendo com que os pés fiquem frios como um mecanismo de sacrifício de calor para manter o útero aquecido, conforme explica o ginecologista e obstetra Sérgio Floriano.

Crenças populares versus evidências científicas

A associação entre a temperatura das extremidades e a saúde reprodutiva tem raízes em tradições antigas, como a medicina tradicional chinesa, que relaciona as partes do corpo à circulação de energia. Pesquisas recentes têm explorado a percepção do frio e sua relação com a dor, mas sem estabelecer uma ligação direta de causa e efeito com as cólicas menstruais.

Um estudo observacional realizado em Taiwan em 2023 associou a sensação de extremidades frias à dismenorreia (cólica menstrual). Outra pesquisa com 419 mulheres ligou o consumo de bebidas geladas no inverno a dores mais intensas em pacientes com sensibilidade térmica. No entanto, a ginecologista e professora Cláudia Lima ressalta que esses são estudos observacionais que identificam associações, mas não provam causalidade. Até o momento, não há evidências científicas suficientes para afirmar que pés frios resfriam o útero ou causam cólicas.

Alívio da dor e sinais de alerta

Embora o frio nos pés não seja a causa das cólicas, a aplicação de calor local na região abdominal tem respaldo científico para o alívio do desconforto. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2018 confirmou os benefícios da terapia térmica para reduzir as dores menstruais.

Especialistas alertam que crenças populares não devem impedir a busca por avaliação médica adequada quando a dor menstrual se torna intensa e incapacitante. Desconfortos que impedem as atividades diárias podem ser indicativos de condições médicas sérias, como endometriose, miomas uterinos, adenomiose ou doença inflamatória pélvica. "Tomar uma bebida quente ou manter os pés aquecidos são atitudes que podem proporcionar conforto. O problema começa quando uma crença atrasa a procura por atendimento médico", alerta a ginecologista.

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