Maconha: Riscos de longo prazo para pulmões, coração e cérebro

Destaques
- •Uso crônico de maconha pode levar a bronquite, DPOC e aumentar risco de infarto e AVC.
- •Estudos indicam comprometimento da função pulmonar e alterações cognitivas com o uso prolongado.
- •Dependência e risco de câncer nas vias aéreas também são associados ao consumo.
O uso a longo prazo da maconha, também conhecida como cannabis, está associado a uma série de efeitos indesejáveis que afetam principalmente os sistemas respiratório, cardiovascular e cognitivo. Embora a discussão sobre a legalização e os benefícios recreativos ou medicinais da substância continue, é fundamental compreender os riscos à saúde decorrentes do consumo crônico.
Efeitos no Sistema Respiratório
A fumaça da maconha, assim como a do cigarro comum, contém substâncias tóxicas que prejudicam os brônquios. O uso prolongado pode reduzir o número de células ciliadas na mucosa brônquica, essenciais para a eliminação de secreções, e aumentar a produção de muco. Isso resulta em sintomas como tosse crônica, expectoração e chiado no peito.
Embora a falta de ar não seja mais prevalente que em não fumantes, um estudo com mil participantes mostrou que esses sintomas respiratórios podem ser reversíveis com a abstinência. No entanto, o uso de maconha pode levar a um declínio mais pronunciado da função pulmonar, característico da Doença Pulmonar Obstrutiva-Crônica (DPOC), embora o risco de desenvolver a doença pareça ser menor do que no tabagismo comum.
A diminuição das defesas locais nas vias aéreas também aumenta o risco de infecções respiratórias, como pneumonias.
Riscos Cardiovasculares e Neurológicos
O THC, principal composto psicoativo da maconha, pode causar taquicardia. Em homens com histórico de infarto, fumar maconha, mesmo ocasionalmente, pode desencadear dores no peito. Pesquisas indicam que o uso regular, mesmo menos de uma vez por semana, aumenta em 2,5 vezes o risco de infarto, e o uso frequente eleva esse risco para 4,2 vezes. Os infartos associados ao uso de maconha parecem estar ligados a espasmos vasculares, que interrompem o fluxo coronariano.
Relatos também apontam para casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico em jovens, onde o uso de maconha foi o único fator de risco identificado. Os mecanismos envolvidos incluem variações na pressão arterial e vasoespasmos, que tendem a desaparecer após alguns meses de abstinência.
Dependência, Câncer e Função Cognitiva
A dependência de maconha é um risco real, especialmente para quem inicia o uso na adolescência, com taxas de risco que variam entre 16% e 50% para usuários diários. Os sintomas de abstinência incluem ansiedade, insônia e depressão. O uso crônico pode levar a tolerância, exigindo doses maiores e aumentando a probabilidade de complicações a longo prazo.
Embora o THC não seja carcinogênico, as substâncias tóxicas da fumaça podem aumentar o risco de câncer nas vias aéreas, boca, esôfago e bexiga, com uma relação mais consistente com o câncer de pulmão, especialmente quando associado ao uso de cigarro comum e álcool.
O uso regular e prolongado de maconha também pode causar déficits de atenção, aprendizado verbal e memória. Estudos de ressonância magnética mostram alterações no hipocampo, córtex pré-frontal e cerebelo, áreas cruciais para funções cognitivas.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine em 2022, com 1.037 participantes acompanhados até os 45 anos, investigou os efeitos do uso de cannabis e tabaco na função pulmonar. A pesquisa, do tipo coorte, revelou que o uso cumulativo de cannabis foi associado a volumes pulmonares mais altos, sugerindo hiperinflação, e a um aumento na resistência das vias aéreas maiores e fluxo expiratório médio mais baixo. O estudo concluiu que esses efeitos são distintos dos observados com o tabaco e que o uso de cannabis pode prejudicar a transferência de gases nos pulmões.
Pesquisa citada
- Differential Effects of Cannabis and Tobacco on Lung Function in Mid–Adult Life
American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine · 2022
Matérias originais
- Cannabis, toxicidade tardia · drauziovarella.uol.com.br



