Gestores alertam: Brasil pode ter período prolongado de pressão econômica

Destaques
- •Executivos de gestoras de recursos apontam incertezas fiscais como principal risco para a economia brasileira.
- •A falta de clareza sobre o controle de gastos públicos pode interromper o ciclo de queda de juros e afetar o câmbio e a inflação.
- •O mercado aguarda a definição da equipe econômica e a apresentação de um plano fiscal consistente para recuperar a confiança.
A falta de sinalizações claras sobre o ajuste fiscal e a condução das contas públicas no Brasil tem gerado preocupação entre gestores de recursos, que alertam para um possível período prolongado de pressão econômica no país. A avaliação é que a gestão das despesas públicas é o principal fator determinante para a confiança dos investidores e a trajetória da economia brasileira.
Durante a Copa BTG Trader 2026, em São Paulo, executivos como Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, e Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, destacaram que a expansão dos gastos públicos em ritmo superior ao da atividade econômica pressiona a inflação, dificulta a redução dos juros e amplia o custo de financiamento do Estado e das empresas.
Ajuste fiscal: pressão do mercado e câmbio
Alfredo Menezes avalia que o novo governo pode não priorizar medidas fiscais enquanto os mercados não reagirem de forma mais contundente. Segundo ele, o Brasil precisa de um estresse financeiro para que o ajuste fiscal ocorra. O executivo aponta o câmbio como um dos principais fatores capazes de pressionar os parlamentares a agir, pois ele influencia diretamente os preços de diversos produtos e a inflação de alimentos. Sem uma reação mais forte do mercado, Menezes não vê o PT tomando medidas mais austeras.
Mansueto Almeida reforça que o grande desafio do Brasil é segurar o crescimento do gasto público. Ele apresentou dados indicando que, nos últimos quatro anos, o gasto federal cresceu aproximadamente 22%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) avançou cerca de 11%. Para ele, o ajuste fiscal deve ser acompanhado de reformas que aumentem a produtividade e melhorem o ambiente de negócios, e não apenas de cortes pontuais.
Juros e Bolsa sob pressão
A incerteza fiscal tem impacto direto nos mercados. Menezes aponta os títulos prefixados de longo prazo como ativos mais sujeitos a sofrer, e a bolsa com expectativa de desempenho horizontal, embora alguns papéis possam se destacar. Claudio Coppola, da Venice Invest, compartilha a preocupação, afirmando que o discurso de vitória de Lula não trouxe indicações claras de ajuste fiscal.
Mansueto Almeida alerta que a dificuldade em demonstrar como controlar o crescimento das despesas públicas pode comprometer a continuidade do ciclo de redução dos juros. Ele afirma que, se não houver redução no gasto público, o ciclo de juros pode ter acabado, afetando a capacidade do Banco Central de continuar cortando a Selic. A manutenção de juros elevados afeta o custo de financiamento do governo, das empresas e das famílias, desestimulando investimentos.
O economista também destaca que a taxa de juros real dos títulos públicos indexados à inflação (NTN-Bs) tem se mantido em patamares elevados, próximos de 7,5% a 8% ao ano, refletindo a dificuldade do mercado em acreditar na sustentabilidade fiscal do país. Uma queda consistente dessas taxas seria um sinal de recuperação da confiança.
Próximos passos: equipe econômica e plano fiscal
A definição da equipe econômica e a apresentação de um plano consistente para controlar as despesas públicas são consideradas determinantes para recuperar a confiança dos investidores. Mansueto Almeida ressalta que o mercado precisa conhecer os nomes responsáveis pela condução da política econômica e, principalmente, as propostas para desacelerar o crescimento dos gastos. A credibilidade da política econômica, aliada a um ambiente de juros mais baixos e previsibilidade, pode atrair investimentos estrangeiros e impulsionar o crescimento.
O economista vê potencial no Brasil, com setores como energia, agronegócio e petróleo, mas condiciona o cenário à capacidade do país de organizar suas contas públicas e avançar nas reformas. "O Brasil tem tudo para dar certo, desde que a gente faça o dever de casa", conclui.
Matérias originais
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