Mulheres 60+ encontram alegria e propósito no fandom do BTS

Destaques
- •Fãs com mais de 60 anos formam um grupo dedicado no fandom do BTS, desafiando estereótipos sobre envelhecimento.
- •O grupo oferece alegria, comunidade e um senso de pertencimento, combatendo o etarismo e promovendo bem-estar.
- •A participação no fandom estimula habilidades cognitivas e a busca por novas experiências, apesar de riscos como gastos excessivos.
Um fenômeno surpreendente tem marcado a presença do grupo sul-coreano BTS no Brasil: mulheres com mais de 60 anos formam uma base de fãs cada vez mais dedicada e apaixonada. Essas integrantes, que se autodenominam ARMY, encontram no grupo uma fonte de alegria, comunidade e propósito, desafiando estereótipos sobre o envelhecimento e o consumo de cultura pop.
Eliette Amaral, de 63 anos, relata que sua imersão no universo do BTS começou em 2022, após um convite para uma festa de fã-clube. Inicialmente receosa por ser a mais velha, ela logo se conectou com outras fãs, descrevendo a experiência como "um bando de mulheres apaixonadas por sete meninos". A aposentadoria e um período de depressão pós-Covid-19 a impulsionaram a buscar refúgio em doramas e, posteriormente, na música do BTS, cujas letras abordam temas como depressão e autoaceitação.
Acolhimento e combate ao etarismo
A neuropsicóloga Veruska Vasconcelos, especialista em gerontologia, explica que o fandom pode proporcionar um tipo de reconhecimento que muitas vezes falta no ambiente familiar. "Na família, aquela mulher talvez seja reconhecida principalmente como mãe, avó ou cuidadora. No fandom, ela pode ser reconhecida pelo que gosta, sabe, compartilha e descobre", afirma.
Vasconcelos aponta que o etarismo, o preconceito contra idosos, impõe limites sociais ao entusiasmo, sugerindo que envelhecer significa renunciar à curiosidade e à diversão. Para essas mulheres, a participação no fandom do BTS representa uma forma de quebrar essas barreiras, reafirmando sua vitalidade e seus desejos.
Júlia Fernandes Soares Augusto, de 86 anos, descobriu o BTS por indicação do neto e se encantou. A realização do sonho de assistir a um show, acompanhada pela neta Beatriz Horta, de 28 anos, resultou em um vídeo viral e experiências inéditas para ambas.
Impacto terapêutico e novas experiências
Em Itapeva (SP), Maria Helena Loureiro dos Santos, de 67 anos, diagnosticada com Alzheimer em 2023, encontra nos vídeos do BTS uma forma de acalmar episódios de agitação. Suas netas observam que "o BTS está acalmando a vó", e a filha, Luana Loureiro Leme, de 43 anos, considera o grupo um apoio terapêutico para si e para a mãe.
Embora a especialista Veruska Vasconcelos seja cautelosa ao associar o fandom diretamente à melhora da memória ou prevenção de demência, ela reconhece que aprender letras, idiomas e usar ferramentas digitais mobiliza habilidades cognitivas. A neuropsicóloga também alerta para riscos como gastos excessivos e golpes, mas enfatiza que o interesse musical não deve justificar vigilância ou restrição da autonomia.
Eliette, que planeja tatuar uma baleia (símbolo de uma música do BTS), vê essa nova fase como uma libertação. "Naquela época era muito difícil uma mulher ter tatuagem. Agora eu estou me libertando", declara, exemplificando a renovação e o empoderamento que o fandom proporciona a essas fãs.



