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IA concentra valor nos EUA; investidor brasileiro deve buscar gestores menores

23 de outubro de 2026
IA concentra valor nos EUA; investidor brasileiro deve buscar gestores menores

Destaques

  • •Inteligência artificial impulsiona concentração de valor tecnológico nos Estados Unidos, segundo relatório da Startup Genome.
  • •Investidores brasileiros são aconselhados a buscar gestores de venture capital menores e especializados nos EUA para capturar retornos.
  • •A janela para investir em startups de IA nos EUA é considerada curta, exigindo ação rápida para não se tornar apenas um consumidor da tecnologia.

A inteligência artificial (IA) está reconfigurando a criação de valor tecnológico, com a maior parte do capital e do valor de startups AI-native (nativas de IA) concentrada nos Estados Unidos. Essa tendência, evidenciada pelo relatório Startup Genome de 2026, reverte a percepção anterior de descentralização da inovação tecnológica. Para investidores brasileiros, isso implica a necessidade de direcionar capital para os EUA e, dentro desse mercado, priorizar gestores menores e mais especializados, onde o capital ainda é escasso.

Entre 2020 e 2024, o trabalho remoto e o capital barato sugeriam uma dispersão da inovação tecnológica. Dados da Startup Genome indicavam uma queda na concentração de valor nos maiores ecossistemas de startups globais. No entanto, o relatório mais recente aponta uma reversão: os 20 maiores ecossistemas voltaram a concentrar 75,4% do valor total gerado por startups, o mesmo patamar de 2020. O Vale do Silício, em particular, aumentou sua fatia para 28,3%.

O motor da concentração: a IA

A IA é o principal motor dessa reversão. O valor dos ecossistemas AI-native ultrapassou US$1 trilhão em 2025, com um crescimento de 507% desde 2020. Entre o segundo semestre de 2023 e 2025, a América do Norte recebeu 78% de todo o venture capital investido em startups de IA globalmente. Nos EUA, nasceram 43% das novas startups de IA no mundo nesse período, consolidando o país como o principal polo de criação e atração de capital para essa tecnologia.

Em contraste, a China, embora um polo relevante na criação de modelos de IA e líder em publicações científicas e patentes, opera com um modelo de financiamento distinto. O investimento privado em IA na China foi de US$12,4 bilhões em 2025, significativamente menor que os US$285,9 bilhões nos EUA. Grande parte do financiamento chinês provém de fundos estatais, e barreiras regulatórias americanas, como a regra do Tesouro dos EUA que proíbe certos investimentos em empresas chinesas de IA, limitam a participação de capital privado internacional.

Lições de crises anteriores

A concentração de valor em polos pioneiros é um padrão histórico em tecnologias de fronteira, como demonstrado por Josh Lerner, de Harvard. Tecnologias de ponta começam concentradas, sua adoção se espalha rapidamente, mas a capacidade de criação permanece nos polos originais por décadas devido ao acúmulo de conhecimento técnico. Crises como a bolha da internet (1999-2001), a crise imobiliária (2008) e a alta dos juros (2021-22) mostraram que o valor de longo prazo de tecnologias disruptivas, como a internet, o mobile e a IA, tende a se concentrar nas empresas fundadas na origem da inovação.

O relatório da Startup Genome alerta que o risco para empresas brasileiras não é deixar de adotar IA, mas sim se tornarem meros "consumidores produtivos" de uma tecnologia cujos ativos valiosos pertencem a outros. Os ganhos da IA tendem a favorecer o capital em detrimento do trabalho, tornando a posse do capital na origem ainda mais crucial.

Estratégia para o investidor brasileiro

A fundadora da Nido, Laura Constantini, destaca que a concentração de valor em IA nos EUA cria uma distorção para famílias brasileiras, que historicamente têm pouca exposição ao early-stage americano. A gestora de Venture Capital Nido busca conectar famílias brasileiras à economia de inovação global.

A estratégia recomendada para o investidor brasileiro envolve duas decisões distintas: onde investir e com quem investir. Onde investir significa seguir a concentração de valor e direcionar capital para os EUA, onde a IA está sendo criada. Com quem investir significa buscar gestores menores, com teses e originação diferenciadas, que disputam menos capital, negociam melhores condições de entrada e têm maior probabilidade de obter retornos superiores. Gestores emergentes, por exemplo, superam os demais em 7,2 pontos percentuais de TIR ao ano, segundo o Colibrí Institute.

A janela de entrada nas empresas que capturarão o valor da IA é considerada curta. Esperar que essas tecnologias cheguem ao Brasil, geralmente de três a cinco anos depois, significa investir na adoção, não na criação. A parcela do valor que fica com quem cria plataformas de tecnologia, estimada em 55% no ciclo de SaaS e mobile, pode chegar a 75% no ciclo da IA e ultrapassar 85% na convergência de plataformas futuras. Investir apenas no Brasil é, portanto, olhar o futuro pelo retrovisor, capturando o eco da criação de valor, não a fonte.

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