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Histórico: Dois indígenas ingressam na carreira diplomática brasileira

06 de novembro de 2026
Histórico: Dois indígenas ingressam na carreira diplomática brasileira

Destaques

  • •Marcelo Kariri Menezes e Idjahure Terena são os primeiros indígenas a se tornarem terceiros-secretários da carreira diplomática.
  • •A entrada dos novos diplomatas é resultado de políticas de ações afirmativas, incluindo a reserva de vagas para indígenas e quilombolas.
  • •A conquista é vista como um avanço histórico, mas líderes indígenas ressaltam a necessidade de mudanças concretas nas comunidades e territórios.

Pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, dois indígenas ingressaram no Instituto Rio Branco para o Curso de Formação de Diplomatas. Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse como terceiros-secretários da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Eles integram a turma 2026-2028, composta por 60 aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).

A nova turma se destaca pela diversidade, com 27 aprovados pertencentes a grupos historicamente sub-representados: 17 pessoas negras, sete com deficiência, duas indígenas e uma quilombola. O concurso de 2025 marcou a introdução da reserva de vagas para indígenas e quilombolas, além do aumento para pessoas negras, conforme a Lei nº 15.142.

Ações Afirmativas e Diversidade no Itamaraty

A ministra substituta das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, ressaltou a importância de aproximar a composição do corpo diplomático da diversidade da sociedade brasileira. Ela afirmou que o Itamaraty tem empreendido esforços contínuos para democratizar o acesso ao serviço exterior e destacou o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que agora apoia não apenas pessoas negras, mas também mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

“A diplomacia brasileira precisa refletir a diversidade do país”, declarou a ministra. Ela também enfatizou que a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas é um ato de resistência em tempos de ameaças à democracia e aos direitos. O Itamaraty reafirma, com essa iniciativa, o papel fundamental desses grupos na definição da posição do Brasil no mundo.

Trajetórias Individuais e Identidade Indígena

Marcelo Kariri Menezes, natural de Campina Grande (PB), é formado em Engenharia Elétrica pela UFCG e possui MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Antes de ingressar na diplomacia, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos. Sua trajetória acadêmica foi marcada pela superação de preconceitos e pela construção de orgulho de sua identidade Kariri, originária do sertão nordestino, um grupo frequentemente invisibilizado em discussões sobre povos indígenas.

Marcelo relatou que em sua comunidade havia uma tradição que desencorajava o estudo para pessoas indígenas, direcionando-as para trabalhos braçais. Sua mãe, que trabalhava em escolas, incentivou os filhos a estudar, vendo na educação uma porta para a vida. Ele se tornou a primeira pessoa de sua família a entrar na faculdade e busca agora facilitar o caminho para outros indígenas, oferecendo aulas gratuitas e compartilhando conhecimento.

Idjahure Terena, nascido no Rio de Janeiro, tem formação em Ciências Sociais pela PUC-Rio e mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Ele se aproximou do povo Terena através da família de sua avó e de seu pai, o ator Macsuara Kadiwéu. Idjahure destaca a redução territorial e as teorias de assimilação cultural que ameaçaram a identidade Terena, mas ressalta que o povo resistiu.

Para Idjahure, a entrada na diplomacia é crucial para que os povos originários participem das decisões nacionais. Ele argumenta que a cidadania plena não é atingida se os indígenas não ocupam espaços de poder. Ele também aponta a contradição entre o Estado de Direito e a persistência de violência e estruturas coloniais em territórios indígenas.

Conquista Coletiva e Desafios Futuros

O escritor e líder indígena Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras, discursou na cerimônia, classificando a chegada de representantes indígenas ao Itamaraty como um avanço histórico. Contudo, ele alertou que essa conquista individual não garante uma mudança na realidade das comunidades, citando os ataques genocidas contra os povos Kaiowá e Guarani no Mato Grosso do Sul como exemplo da continuidade da violência e da falta de respostas do Estado.

Krenak criticou a exclusão histórica dos indígenas da formação da sociedade brasileira e a falta de gestos consequentes das agências estatais para que se sintam plenamente membros da sociedade. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, lembrou o longo período de tutela imposto aos povos originários, que tiveram sua capacidade de representação política negada até a Constituição de 1988. Ele considera a entrada dos diplomatas um ganho para toda a nação brasileira.

A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira, destacou o papel das ações afirmativas no combate a barreiras históricas de acesso ao serviço público. Ela afirmou que a falta de oportunidade, e não de esforço, impedia gerações de negros, indígenas e quilombolas de alcançarem posições de destaque.

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