Fotógrafo Martin Parr é homenageado em exposição no Centro Cultural Fiesp
Destaques
- •Exposição 'Mundo Pequeno' traz 50 fotos do britânico Martin Parr, conhecido por retratar o comportamento de turistas.
- •O curador João Kulcsár destaca como Parr, com humor e ironia, capturava a busca por registro em detrimento da experiência.
- •A mostra no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, explora o consumismo, o turismo de massa e suas contradições.
O Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, recebe a exposição "Mundo Pequeno", com cerca de 50 fotografias do renomado fotógrafo britânico Martin Parr. Conhecido por seu olhar irônico e humorístico sobre o comportamento humano, especialmente o de turistas, Parr dedicou grande parte de sua carreira a documentar as peculiaridades da vida cotidiana e os efeitos do consumismo e do turismo de massa.
A mostra, que já esteve em outros locais, foca na maneira como as pessoas, impulsionadas pelas redes sociais, buscam registrar sua presença em locais icônicos, muitas vezes priorizando a foto em detrimento da experiência vivenciada. Um exemplo citado é a famosa Mona Lisa, no Museu do Louvre, onde multidões se aglomeram com celulares em punho, mais interessadas em capturar a imagem do que em apreciar a obra.
O olhar de Martin Parr sobre o turista
Desde o início de sua trajetória, Martin Parr (1952-2025) voltou suas lentes para o comportamento dos turistas ao redor do mundo. Suas fotografias, como uma registrada em Veneza que mostra uma fila de pessoas perto de uma gôndola, evidenciam a busca incessante por um registro, mesmo que isso signifique apenas uma parada rápida antes de seguir adiante.
Outra imagem icônica, capturada perto da Torre de Pisa, ironiza a pose clássica em que turistas simulam segurar o monumento. A fotografia, tirada de um ângulo diferente, revela a artificialidade dessas ações, que visam apenas a foto perfeita para as redes sociais.
O curador da mostra, João Kulcsár, ressalta que essa busca pelo registro, potencializada pelas redes sociais, muitas vezes impede que as pessoas realmente vivenciem o momento. "Muitas vezes as pessoas tiram a foto, mas não têm a experiência", afirma Kulcsár.
Consumismo e crítica social nas lentes de Parr
Nascido em Epsom, Inglaterra, Martin Parr estudou fotografia e trabalhou em resorts, onde aprimorou seu olhar para os momentos ordinários. Sua obra frequentemente abordava a ascensão da classe média e o poder de consumo, temas que ele considerava centrais para a identidade humana. "Comprar e consumir é uma parte do que somos", declarou Parr em uma entrevista.
A linguagem visual de Parr, com cores saturadas e um estilo que se aproximava da publicidade, marcou uma ruptura na fotografia documental, tradicionalmente em preto e branco. Essa abordagem inovadora, que incluía o uso de flash, gerou resistência em nomes como Henri Cartier-Bresson, que considerava seu trabalho muito distante da fotografia documental clássica.
A exposição também inclui ativações interativas que convidam o visitante a se fotografar em cenários virtuais, replicando a contradição que Parr tanto explorava: a tentação de registrar a própria visita, mesmo ao observar a superficialidade desse ato em outros.
Legado e reflexões sobre o turismo
O trabalho de Martin Parr é marcado pela polissemia, permitindo diversas interpretações. Em uma foto na Gâmbia, ele expôs o desconforto de uma turista branca diante de moradores locais vendendo souvenirs, evidenciando as desigualdades sociais inerentes ao turismo global.
Sua exposição "Global Warning", em Paris, relacionou o consumo e o turismo de massa à crise climática, mostrando a amplitude de suas preocupações. Parr, que presidiu a agência Magnum Photos entre 2013 e 2017, publicou mais de cem livros e, pouco antes de falecer, lançou sua autobiografia em imagens, "Totalmente preguiçoso e desatento".
Mesmo nos últimos anos de vida, quando por vezes optava por usar apenas o celular, Parr manteve seu olhar atento, afirmando que não deixaria de fotografar: "Prefiro morrer antes". A exposição "Mundo Pequeno" oferece ao público brasileiro a oportunidade de mergulhar nesse universo crítico e divertido.



