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Ataques cibernéticos ao agronegócio brasileiro disparam 638% em 2026

04 de novembro de 2026
Ataques cibernéticos ao agronegócio brasileiro disparam 638% em 2026

Destaques

  • •O agronegócio brasileiro registrou 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos entre janeiro e setembro de 2026.
  • •A expansão da conectividade nas fazendas e agroindústrias amplia os riscos de sequestro de dados e paralisação da produção.
  • •Especialistas alertam para a necessidade de um investimento proporcional em cibersegurança, acompanhando o ritmo de adoção tecnológica no campo.

O agronegócio brasileiro foi alvo de 1 bilhão de tentativas de ataques cibernéticos entre janeiro e setembro de 2026, conforme levantamento da FortiGuard Labs, divisão de inteligência da Fortinet. No cenário global, o setor registrou 8,3 bilhões de atividades maliciosas, um aumento expressivo de 638,49% em relação ao mesmo período de 2025. O crescimento da conectividade em fazendas e agroindústrias tem ampliado os riscos de sequestro de dados, manipulação de máquinas e paralisação da produção.

Alexandre Bonatti, vice-presidente de engenharia da Fortinet no Brasil, destaca a importância de alertar o setor sobre a necessidade de uma abordagem segura para a tecnologia. "A tecnologia está funcionando para o agro, mas ele ainda não tem uma retaguarda robusta de proteção em cibersegurança", afirma. Ele observa que a velocidade de adoção de novas tecnologias no campo não tem sido acompanhada por investimentos equivalentes em proteção, tornando a cibersegurança uma questão operacional crucial.

Vulnerabilidade em sistemas conectados

Um exemplo da vulnerabilidade dos equipamentos conectados ocorreu em outubro, quando criminosos assumiram remotamente o controle de sistemas de refrigeração de centenas de supermercados na França. O ataque, que ocorreu na noite de 11 para 12 de outubro, afetou cerca de 300 estabelecimentos das redes Intermarché e Netto, além de aproximadamente 80 supermercados Carrefour, unidades da Coopérative U, cerca de 30 lojas Monoprix e unidades da E.Leclerc.

Os invasores exploraram falhas em sistemas de controle de refrigeração da fabricante dinamarquesa Danfoss, utilizados para monitorar e ajustar remotamente temperaturas de câmaras frias e congeladores. A ofensiva resultou no descarte de produtos perecíveis e na interrupção das operações comerciais. Bonatti ressaltou que, diferentemente de ataques a computadores ou celulares, a invasão de sistemas de refrigeração pode parecer incomum, mas representa um risco real.

O episódio na França ganhou desdobramentos em 2 de novembro, com uma nova onda de ataques a sistemas de refrigeração atingindo estabelecimentos comerciais na Suécia, Bélgica e Alemanha. Criminosos também exigiram pagamento para não comprometer os equipamentos.

Impacto no agronegócio brasileiro

No Brasil, a interferência em equipamentos conectados também representa um risco significativo. Bonatti mencionou casos de granjas cujas operações foram interrompidas por mais de 14 dias após ataques cibernéticos, embora os estabelecimentos não sejam identificados por questões de confidencialidade e receio de exposição pública.

Para ilustrar o potencial impacto, uma operação avícola com capacidade de abate de 600 mil frangos por dia, com uma paralisação de 14 dias, deixaria de processar 8,4 milhões de aves. Esse cálculo, embora ilustrativo, demonstra a dimensão que um ataque pode alcançar, afetando não apenas o abate, mas também o recebimento de animais, transporte, armazenagem e fornecimento de produtos.

A possibilidade de interromper a produção é uma tática comum em ataques de ransomware, onde o bloqueio de sistemas é acompanhado de exigências financeiras. Criminosos visam empresas onde a urgência em restabelecer as operações aumenta a pressão para o pagamento, buscando um retorno financeiro com menor esforço.

Tecnologia e segurança cibernética no campo

A transformação de máquinas agrícolas em equipamentos conectados, como tratores autônomos, drones de pulverização e sistemas de alimentação animal, amplia as possibilidades de invasão. A conectividade via satélite em propriedades rurais incorporou à internet dispositivos antes operados em redes locais. Um drone agrícola, por exemplo, pode ter suas configurações alteradas por invasores, como a dosagem de defensivos, o que pode comprometer uma plantação inteira.

O estudo da FortiGuard Labs identificou 1,6 milhão de atividades relacionadas a botnets, redes de equipamentos comprometidos controlados remotamente. Desse total, 19 mil registros estão associados à família IoT-Mirai. O monitoramento também contabilizou 1 bilhão de detecções de tentativas de negação de serviço e 133,4 milhões de tentativas de exploração de falhas em softwares. É importante notar que tentativas identificadas não significam ataques bem-sucedidos.

A América do Norte concentra a maior parte das atividades maliciosas contra o agronegócio (81,2%), seguida pela América Latina (12,6%). O Brasil, isoladamente, registrou 1 bilhão de tentativas no período analisado.

Bonatti reforça que a fragilidade no agro reside não apenas nos equipamentos, mas na forma como a tecnologia é incorporada. "O setor está correndo com tecnologia, mas o investimento em cibersegurança não tem a mesma proporção", afirma. Muitos dispositivos de Internet das Coisas (IoT) não permitem a instalação de antivírus tradicionais, exigindo segurança por meio de controles de rede, restrições de acesso e monitoramento. A recuperação após uma invasão também depende da maturidade em cibersegurança das empresas, com equipes e mecanismos de recuperação que permitam restabelecer o ambiente sem pagamento de resgate. A falta de regulamentações específicas para comunicação de incidentes no agronegócio dificulta a quantificação das ocorrências efetivas no país.

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