Uso de cetamina causa danos graves e crescentes em jovens no Reino Unido e Brasil

Destaques
- •Aumento expressivo de jovens buscando tratamento para dependência de cetamina no Reino Unido, com casos de danos severos à bexiga e rins.
- •Pesquisadores alertam para a necessidade de adaptação dos serviços de saúde para lidar com as complexidades médicas e psicológicas causadas pelo uso da droga.
- •No Brasil, a substância é controlada e seu uso recreativo é ilegal, mas estudos indicam sua presença em festas e festivais.
O uso contínuo e intenso de cetamina, uma droga classificada como classe B no Reino Unido e sujeita a controle especial no Brasil, tem levado a danos graves e crescentes em jovens. Relatos de casos como o de Megan Harmes, de 24 anos, que desenvolveu incontinência urinária e dores intensas após anos de uso, evidenciam a gravidade do problema. A Kaleidoscope, uma entidade de apoio a dependentes químicos no Reino Unido, registrou um salto de 112 encaminhamentos para tratamento em 2024, a maioria entre 18 e 24 anos, comparado a apenas duas em 2021. Metade dos pacientes atendidos pela clínica Birchwood, da Kaleidoscope, hoje sofre com problemas relacionados à cetamina.
Danos e riscos do uso recreativo
A cetamina, utilizada clinicamente como anestésico dissociativo e, no Brasil, com a escetamina aprovada para depressão resistente, torna-se perigosa quando usada sem acompanhamento médico. Segundo a Universidade do Sul do País de Gales, os danos provocados pelo uso recreativo aparecem mais rapidamente do que os associados ao álcool ou drogas da classe A. Problemas de memória, dores crônicas, lesões na bexiga e insuficiência renal são algumas das consequências relatadas. O pesquisador Darren Quelch destaca que alguns jovens iniciam o uso aos 13 anos, e que os serviços de tratamento precisam se adaptar a um perfil de paciente com necessidades médicas mais complexas.
Adaptação dos serviços de saúde
Profissionais de saúde enfrentam desafios para diagnosticar e tratar a dependência de cetamina, pois os sintomas podem não ser imediatamente associados ao uso da droga. A pesquisa de Quelch aponta que jovens relutam em procurar ajuda por medo de julgamento. A Universidade do Sul do País de Gales e a Kaleidoscope estão conduzindo estudos para identificar os tratamentos mais eficazes para este grupo específico de pacientes, que difere daqueles dependentes de álcool e outras drogas. A necessidade de adaptação dos serviços de saúde, tanto no Reino Unido quanto no Brasil, é urgente para lidar com a crescente demanda e a complexidade dos casos.
O cenário no Brasil
No Brasil, a cetamina e a escetamina são substâncias controladas, com uso restrito a estabelecimentos de saúde. A Anvisa aprovou em 2020 o spray nasal de escetamina para depressão resistente, mas seu uso recreativo é ilegal. Um estudo realizado entre 2023 e 2025 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública encontrou cetamina em 23% das amostras coletadas em festas e festivais em São Paulo, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul, indicando a circulação da droga em ambientes recreativos.
Um estudo publicado na revista Molecules em 2025, intitulado "Ketamine—From an Anesthetic to a Psychiatric Drug: Mechanisms of Action, Clinical Applications and Potential Risks", explora as propriedades farmacológicas da cetamina. A pesquisa destaca seu uso como anestésico e analgésico, além de seu potencial no tratamento de transtorno por uso de substâncias e depressão resistente. O artigo menciona que a S-ketamina pode promover efeitos antidepressivos rápidos através do aumento da sinalização glutamatérgica e da plasticidade sináptica.
Apesar dos avanços no atendimento precoce e da participação de ex-dependentes na melhoria dos serviços, a dimensão total do problema e as consequências a longo prazo do uso de cetamina ainda são incertas. A recaída é um desafio significativo, e o organismo pode apresentar danos mais rapidamente em casos de reuso após abstinência.



