Série "Muito Além da Moda" celebra 30 anos da São Paulo Fashion Week

Destaques
- •A série documental "Muito Além da Moda" estreia seu último episódio, destacando a trajetória de Paulo Borges e a evolução da São Paulo Fashion Week.
- •O documentário aborda como a SPFW se tornou uma plataforma crucial para a moda brasileira, impulsionando carreiras e a profissionalização de ofícios no setor.
- •O futuro da semana de moda brasileira é discutido, com foco na necessidade de revisitar valores, aprofundar a observação crítica e valorizar a diversidade cultural do país.
A série documental "Muito Além da Moda", dirigida por Richard Luiz, chega ao seu terceiro e último episódio nesta quinta-feira (05.11), com exibição no canal E! e posterior inclusão no catálogo da plataforma de streaming Universal+. A produção celebra os 30 anos da São Paulo Fashion Week (SPFW), idealizada pelo empresário Paulo Borges, e sua importância incontornável para a moda brasileira.
Paulo Borges concebeu a SPFW com a visão de criar um evento coletivo que impulsionasse a indústria da moda no Brasil. Ele relembra suas viagens internacionais na juventude, onde observava a logística e a criatividade por trás dos desfiles, e percebeu a necessidade de uma semana de moda unificada em São Paulo. "Sempre entendi a necessidade de ter uma semana de moda. Eu viajava e, quando voltava, pensava: o que temos em São Paulo?", conta.
A construção de um coletivo na moda
Na época em que Borges iniciou sua carreira, há quase quatro décadas, o setor de moda no Brasil era marcado pelo protagonismo individual. "Em um momento do documentário, me defino como costureiro de pessoas. Acho que foi isso que eu fiz o tempo todo", afirma. Ele acreditava na força do coletivo para somar forças e superar dificuldades. A criação de um calendário de moda, segundo a consultora Gloria Kalil, extrapolou o benefício de concentrar lançamentos, auxiliando a indústria e o varejo a se organizarem e repensarem a cadeia produtiva.
A SPFW também foi fundamental para a profissionalização de diversas carreiras no setor, como stylists, beauty artists, iluminadores de passarela, coordenadores de camarim e, notavelmente, a carreira de modelo. Agências e critérios de cachê, inexistentes ou incipientes, foram desenvolvidos, impulsionando modelos brasileiras para o mercado internacional, como Gisele Bündchen, Carol Trentini e Isabeli Fontana, que integram o casting da série.
Um espelho das transformações culturais
O diretor Richard Luiz destaca o papel de Paulo Borges em reunir talentos e criar uma plataforma que deu visibilidade e consistência à moda brasileira. "Paulo teve um papel importante ao reunir talentos e criar uma plataforma que deu visibilidade e consistência à moda brasileira. Ter acompanhado isso desde 1997 me ajudou a construir uma narrativa que relaciona sua história com as mudanças culturais e profissionais do setor", explica.
A série também aborda a singularidade do Brasil em relação a outros polos da moda mundial. Borges ressalta que o formato da SPFW não seguiu um modelo estrangeiro, pois o Brasil possui características sociais, culturais, econômicas e históricas únicas. "E nem daria certo, porque o Brasil não é a França, o Brasil não é a Inglaterra, o Brasil não é a Itália, o Brasil não é os Estados Unidos", afirma. Ele critica a ideia de que o bom é o que vem de fora e defende um modelo de semana de moda que atendesse às necessidades brasileiras, sem submissão a influências externas.
O futuro da moda brasileira
O projeto de Paulo Borges sempre teve uma visão de longo prazo, refletida na crescente diversidade do line-up de marcas, incluindo criadores de diferentes regiões do país. "É impossível personalizar um país que é tão grande, tão múltiplo, de tantas diferenças culturais e sociais, em uma única forma", reflete. Ele questiona a dificuldade em definir a moda brasileira com uma única palavra, contrastando com as definições atribuídas à moda francesa, italiana, inglesa e americana.
Para o futuro, Borges defende o resgate dos princípios, a inversão da lógica da velocidade e o aprofundamento da observação crítica. Ele acredita que o mundo está em um momento de revisão de valores, que deve se espelhar na moda. "A rede social, por exemplo, trabalha num processo extremamente descartável: aquilo que eu falo, aquilo que eu vejo, aquilo que eu posto, aquilo que eu penso, é tudo descartável. Dois dias depois, ninguém mais está falando nisso. A moda não pode ser assim. A roupa pode. Mas a moda não", conclui.



