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Pesquisas brasileiras aprofundam conhecimento sobre história e diversidade africana

22 de outubro de 2026
Pesquisas brasileiras aprofundam conhecimento sobre história e diversidade africana

Destaques

  • •Estudos em linguística histórica e genômica, com apoio de leis educacionais, expandem o entendimento sobre a África e suas conexões com o Brasil.
  • •Pesquisadores brasileiros utilizam DNA e análise linguística para reconstruir o passado africano, desmistificando visões simplistas e binárias.
  • •Avanços na pesquisa acadêmica sobre a África contribuem para a formação docente, produção de material didático e medicina de precisão no Brasil.

Pesquisadores brasileiros estão aprofundando o conhecimento sobre a história e a diversidade do continente africano, utilizando abordagens inovadoras como a linguística histórica e a genômica. Essas pesquisas, impulsionadas por leis que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, buscam superar visões simplistas e coloniais sobre a África, traçando um quadro mais complexo e conectado com a formação do Brasil.

A Lei nº 10.639, de 2003, e a Lei nº 11.645, de 2008, foram marcos importantes para a inclusão do ensino sobre a história e cultura africana e indígena no currículo escolar brasileiro. Segundo Marina de Mello e Souza, professora da USP, a lei de 2003 é uma conquista do movimento negro, visando a superação do racismo. Nilma Lino Gomes, professora da UFMG, destacou que a aprovação da lei representa um passo para uma "ruptura epistemológica e cultural" e uma "reconstrução histórica alternativa e emancipatória".

Essas leis fomentaram a formação docente, a produção de material didático e a pesquisa acadêmica. Uma análise de dissertações e teses na Capes revela um crescimento significativo no número de trabalhos sobre a África após 2003, passando de 68 em 2003 para mais de 400 em diversos anos a partir de 2019. Financiamentos da FAPESP para pesquisas sobre a África também triplicaram em 2026 em comparação com 2003.

Expansão do escopo de pesquisa

Inicialmente, as pesquisas brasileiras focavam na África de colonização portuguesa e no período Atlântico, com interesse no comércio de escravizados. No entanto, nos últimos dez anos, o escopo se expandiu para abranger temas contemporâneos como islamismo, guerras de independência, apartheid e o genocídio de Ruanda, segundo Souza.

Marcos Leitão de Almeida, historiador da USP, ressalta a importância de uma "intelligentsia" brasileira capaz de pensar a complexidade africana a partir de seus próprios termos, abordando dimensões pedagógicas, políticas e geopolíticas do conhecimento. Ele critica a maneira simplista com que intelectuais e políticos frequentemente se engajam com o passado africano.

Linguística histórica e genômica como ferramentas

Almeida utiliza a linguística histórica para reconstruir a história africana, analisando transformações em idiomas para conectar mudanças linguísticas a transformações culturais e sociais. Ele estuda como povos falantes de línguas bantu conceberam e enfrentaram crises como a anomalia climática medieval (ACM), que na África Subsaariana resultou em secas prolongadas, afetando sociedades de agricultura de subsistência.

O estudo comparativo de línguas bantu permite reconstruir vocabulários relacionados à fome, ao ambiente e à vulnerabilidade, desmistificando a África como um "espaço de escassez". Almeida busca escapar de visões binárias que retratam a África como perpetuamente vulnerável ou em superabundância, compreendendo a fome como um processo histórico entrelaçado com a construção de sistemas políticos e estratégias de resiliência.

Na genômica, Iscia Lopes-Cendes, da Unicamp, destaca a importância da diversidade genética africana para compreender a população brasileira. O projeto AGenDA visa sequenciar 750 amostras de DNA de Angola para ampliar os bancos de dados genômicos, que historicamente foram construídos com populações de ancestralidade europeia. Isso é crucial para diagnósticos mais precisos e para o desenvolvimento da medicina de precisão no Brasil.

Lopes-Cendes afirma que a genética demonstra a ausência de base científica para discriminação racial e que a identidade humana transcende o DNA, envolvendo história, cultura e vivências. A pesquisa genômica busca tornar a medicina mais representativa da diversidade humana.

Novas perspectivas na geografia e historiografia

Pesquisadores brasileiros também têm reduzido lacunas sobre a presença de intelectuais negros na história das ciências. Guilherme dos Santos Claudino, da Unesp, recupera o pensamento de geógrafos africanos, como o nigeriano Gabriel Jimoh Afolabi Ojo, e busca construir uma enciclopédia sobre geógrafos negros no Brasil, EUA e seis países africanos. Ele observa um crescimento do interesse pela África na geografia, especialmente nos últimos dez anos, com foco em contribuições intelectuais negras.

Claudino destaca a importância de desmistificar estereótipos sobre a África, um continente com grande diversidade geográfica e linguística. Ele cita o queniano Simeon Ominde, que teve papel fundamental na reforma educacional do Quênia após a independência.

Para Almeida, a consolidação da universidade como espaço de pesquisa sobre a África permite questionar visões negligenciadas e superar o binarismo entre a condenação e a celebração do continente. A investigação de temas como fome e escravidão confere densidade humana à história africana, humanizando o processo histórico e demonstrando que os sujeitos agem em meio a tensões e ambiguidades, em um compromisso republicano e democrático.

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