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Medicamentos GLP-1: Preocupação com agravamento de transtornos alimentares

05 de novembro de 2026
Medicamentos GLP-1: Preocupação com agravamento de transtornos alimentares

Destaques

  • •Incidência global de anorexia e bulimia nervosa aumentou 71% entre 1990 e 2023.
  • •Profissionais alertam que medicamentos para perda de peso à base de GLP-1 podem agravar transtornos alimentares.
  • •Estudos investigam o impacto dos GLP-1 em pacientes com transtornos alimentares e novas diretrizes recomendam cautela.

Medicamentos para perda de peso à base de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, têm sido apontados como um avanço biotecnológico. No entanto, psicólogos clínicos expressam preocupação de que essas substâncias possam atuar como gatilhos para transtornos alimentares. Um novo relatório indica um aumento alarmante na incidência global de anorexia e bulimia nervosas, com um crescimento de 71% entre 1990 e 2023. Em 2023, estima-se que 18,1 milhões de pessoas viviam com um desses transtornos, um número que pode ser ainda maior ao considerar outras condições alimentares. Profissionais da área relatam um agravamento dos casos e o uso indevido desses medicamentos.

Aumento global de transtornos alimentares

Um estudo publicado na JAMA Psychiatry, liderado por Ruhai Bai do Hospital Infantil da Universidade Médica de Nanjing, na China, analisou dados de 1990 a 2023. A pesquisa estimou a incidência anual de anorexia e bulimia nervosa em 204 países e territórios, calculando também os anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs). Os resultados revelaram um aumento de 71% na incidência desses transtornos no período. Em 2023, foram estimados 18,1 milhões de casos, com projeções indicando que até 2050 o número possa atingir 21,8 milhões de pessoas.

Cheri Levinson, psicóloga clínica da Universidade de Louisville, nos EUA, especialista em transtornos alimentares, afirma que atende mais pacientes com sintomas graves do que nunca em seus quase 20 anos de carreira. Ela observa que muitos desses pacientes fazem uso indevido de medicamentos GLP-1 e descreve a situação como a pior que já presenciou. Levinson ressalta que anorexia e bulimia nervosa representam menos da metade de todos os transtornos alimentares, sugerindo que o impacto real pode ser até três vezes maior do que o relatado no estudo.

Fatores desencadeantes e o papel das redes sociais

Embora o estudo de Bai não tenha investigado as causas do aumento, outros especialistas apontam para fatores ambientais. Cynthia Bulik, psicóloga clínica da Universidade da Carolina do Norte, sugere que comparações em redes sociais, influenciadores, desafios e tendências de dietas podem ser gatilhos importantes. Ela observa um aumento na exposição a esse tipo de conteúdo entre 1990 e 2023.

Usuários de redes sociais frequentemente são expostos a imagens editadas e conteúdos de “thinspiration” ou “fitspiration”. Pesquisas, como uma da Universidade de Melbourne, indicaram que algoritmos do TikTok podem apresentar significativamente mais vídeos problemáticos sobre transtornos alimentares a usuários com essas condições. A pandemia de Covid-19 e o isolamento social também foram associados a um aumento nos transtornos alimentares, com um estudo de 2021 mostrando que o número de hospitalizações por essas condições nos EUA dobrou entre 2018 e 2020.

Preocupação com os medicamentos GLP-1

Profissionais da área relatam que a situação parece estar piorando, com o surgimento de transtornos alimentares em idades cada vez mais precoces, incluindo crianças de oito e nove anos. A popularidade dos medicamentos GLP-1 para perda de peso intensifica essa preocupação. Uma pesquisa da Gallup indicou que 15% dos americanos já utilizaram esses medicamentos para emagrecer.

Um estudo preliminar liderado por Cheri Levinson revelou que 30% dos pacientes com transtornos alimentares haviam utilizado medicamentos GLP-1, com 10% apresentando uso indevido. Levinson e colegas observaram casos de crianças desenvolvendo transtornos alimentares após prescrições médicas de GLP-1 ou mesmo comprando versões desses medicamentos online. Cynthia Bulik expressa receio de que os GLP-1 possam levar a perdas de peso extremas em pacientes com anorexia nervosa, dificultando a reversão da doença.

O que diz a pesquisa

Um estudo transversal publicado na JAMA Psychiatry avalia a prevalência do uso e do mau uso de agonistas do receptor de GLP-1 entre pessoas com transtornos alimentares nos EUA. Outra pesquisa, uma síntese narrativa publicada na revista Pharmaceuticals, revisa evidências emergentes sobre o uso de terapias baseadas em GLP-1 em apresentações de transtornos alimentares (ED) e considera implicações para o cuidado orientado à recuperação. A evidência é mais desenvolvida para o transtorno de compulsão alimentar (BED), mas ainda é preliminar e inconsistente. Alguns achados observacionais sugerem redução nos sintomas de compulsão alimentar, enquanto um ensaio controlado por placebo encontrou maior perda de peso sem diferença significativa nos episódios de compulsão. A evidência para bulimia nervosa, anorexia nervosa e outras apresentações de ED é escassa. Para apresentações restritivas e purgativas, a supressão do apetite, saciedade precoce, esvaziamento gástrico retardado e efeitos adversos gastrointestinais podem reforçar a restrição, complicar o monitoramento de sintomas ou interferir na reabilitação nutricional. As terapias baseadas em GLP-1 não são tratamentos estabelecidos para psicopatologia de ED.

Diante desse cenário, Bulik e Levinson recomendam que profissionais de saúde considerem os riscos dos GLP-1 para pessoas com transtornos alimentares. Um conjunto de diretrizes clínicas e de pesquisa, ao qual Bulik contribuiu, sugere que médicos realizem avaliações para identificar transtornos alimentares antes de prescrever esses medicamentos, além de oferecer maior orientação e monitoramento rigoroso aos pacientes.

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