Fadiga de Alertas: Brasil precisa medir confiança em sistemas de emergência

Destaques
- •Sistemas de alerta por celular podem perder eficácia se emitirem avisos excessivos ou imprecisos, levando à "fadiga de alertas".
- •Brasil monitora a quantidade de notificações, mas precisa avaliar a compreensão, confiança e ação dos cidadãos.
- •O desafio é garantir que as pessoas confiem e saibam o que fazer quando um alerta de emergência é emitido.
A capacidade do Brasil de enviar alertas de emergência diretamente para celulares, como o sistema Defesa Civil Alerta, avançou significativamente. No entanto, a simples entrega de mensagens não garante sua efetividade. Um fenômeno conhecido como "alert fatigue", ou fadiga de alertas, pode ocorrer quando avisos repetidos, pouco relevantes ou mal calibrados, perdem a capacidade de chamar a atenção e provocar uma resposta adequada. A questão central não é a tecnologia de alerta, mas a preservação da confiança do público.
O sistema Defesa Civil Alerta utiliza a rede de telefonia celular para enviar mensagens a aparelhos compatíveis em áreas de risco, sem exigir cadastro prévio. Existem dois níveis de alerta: o severo, que indica a necessidade de medidas de proteção, e o extremo, para situações de risco grave e imediato à vida ou propriedade. Este último emite um som semelhante a uma sirene, mesmo no modo silencioso, e não pode ser desabilitado pelo usuário. Contudo, essa funcionalidade técnica não resolve o problema humano de garantir a confiança no alerta.
O risco do "desligamento cognitivo"
Uma pessoa pode não conseguir impedir o celular de tocar, mas pode aprender a ignorá-lo. Isso caracteriza um "desligamento cognitivo", onde o aviso é percebido, mas deixa de gerar atenção proporcional ao risco. Se mensagens graves são percebidas como frequentes demais, imprecisas ou pouco úteis, o custo aparece no próximo aviso. O problema não é apenas o falso alarme, mas a memória negativa que ele deixa.
Até março de 2026, o Defesa Civil Alerta havia emitido 2.103 avisos desde sua criação em dezembro de 2024. Esse crescimento exige uma avaliação de qualidade: quantos alertas atingiram pessoas expostas, foram compreendidos, tiveram orientações executáveis e geraram mudança de comportamento? Se o sistema é percebido como exagerado, a confiança pode diminuir, mesmo que o perigo esteja próximo.
Melhorar a relação entre ameaça e orientação
A resposta não é simplesmente reduzir o número de mensagens, mas aprimorar a relação entre a ameaça, o território, o momento e a orientação. Mensagens como "Há risco de chuva intensa" ou "Evite determinada avenida" são úteis, mas a clareza da ação recomendada é crucial. Quanto maior a gravidade do alerta, mais clara deve ser a resposta à pergunta: "o que eu devo fazer agora?"
A iniciativa internacional Early Warnings for All foca em quatro componentes: conhecimento do risco, detecção e monitoramento, comunicação de alertas e preparação para responder. A lógica é centrada nas pessoas, visando que a informação seja compreensível, confiável e provoque ação antecipada. A orientação brasileira exige que órgãos utilizem a ferramenta com capacitação, plano de contingência, identificação de riscos locais, rotas de fuga, abrigos e treinamento da população.
Medir confiança, não apenas alcance
O Brasil possui um painel para acompanhar a quantidade de notificações, nível de gravidade, tipo de desastre, período e local de envio. O próximo passo deveria incluir indicadores sobre a resposta das pessoas, como compreensão da mensagem, percepção de relevância, confiança no emissor e adoção da ação recomendada. Pesquisas pós-evento poderiam identificar locais ou grupos com sinais de fadiga.
Essas avaliações, combinadas com pesquisas com moradores e exercícios simulados, ajudariam a identificar mensagens pouco compreendidas ou orientações difíceis de executar. A reportagem que ensinava a desativar avisos pode ser um ponto de partida para investigar os motivos pelos quais as pessoas desejariam silenciar uma ferramenta de proteção. A fadiga de alertas é uma hipótese a ser examinada, mas sua dimensão no Brasil ainda precisa ser investigada.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado em 2025 na Asian Journal of Education and Social Studies investigou a relação entre notificações de smartphones, fadiga de alertas e bem-estar mental em estudantes universitários. A pesquisa, que utilizou dados quantitativos de 160 alunos e entrevistas qualitativas com 18 deles, constatou que a frequência das notificações não foi um preditor significativo de resultados cognitivos ou emocionais. Em vez disso, a fadiga de alertas e a disrupção da atenção emergiram como os principais preditores de redução do bem-estar. As descobertas qualitativas revelaram experiências de intrusão cognitiva, sobrecarga mental e dificuldades na autorregulação digital. O estudo conclui que o fardo psicológico das notificações de smartphones é impulsionado mais pelos processos cognitivos e emocionais que elas desencadeiam do que pela sua quantidade, recomendando a promoção da higiene digital e o design de sistemas de notificação menos intrusivos.
Sistemas de alerta salvam vidas quando chegam a tempo, são compreendidos e levam à ação. Um exemplo é o caso de Tilly Smith, que em 2004 ajudou a salvar mais de 100 pessoas na Tailândia ao reconhecer os sinais de um tsunami em uma aula de Geografia. A tecnologia brasileira facilitou o envio de alertas para milhões de celulares, mas o desafio humano é garantir que, ao receberem a mensagem, as pessoas parem, prestem atenção, confiem e saibam o que fazer.
Pesquisa citada
- Alert Fatigue and Smartphone Notifications: A Mixed-methods Study of Attention Disruption and Mental Well-being among University Students
Asian Journal of Education and Social Studies · 2025



