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Extrema-direita usa gênero para atrair eleitoras e controlar participação política

23 de outubro de 2026
Extrema-direita usa gênero para atrair eleitoras e controlar participação política

Destaques

  • •Discurso antifeminista da extrema-direita ganha espaço no debate político brasileiro, focando em temas como família tradicional e reprodução.
  • •Mulheres são atraídas por cargos políticos, mas com participação seletiva e restrita a quem defende a ordem de gênero tradicional.
  • •A disputa eleitoral se concentra em quais mulheres podem participar, como devem fazê-lo e para quais projetos políticos seus votos devem ser direcionados.

O direito das mulheres à participação política no Brasil, que representam 52,8% do eleitorado, tem sido alvo de questionamentos por setores da extrema-direita. O discurso, antes restrito a nichos online, agora ganha espaço no debate político, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Segundo a socióloga Camila Galetti, a extrema-direita aceita a participação feminina de forma seletiva, privilegiando mulheres que defendem a família tradicional e afastando candidaturas progressistas.

A estratégia da extrema-direita inclui o uso de temas como aborto e educação sexual para mobilizar eleitores conservadores e limitar a autonomia feminina. Essa abordagem, que Galetti descreve como central para o projeto político do grupo, utiliza o gênero como um "guarda-chuva" para aglutinar pautas relacionadas à família, sexualidade, reprodução e educação, construindo o feminismo e os direitos LGBT+ como inimigos responsáveis pela desorganização familiar e perda da autoridade masculina.

A "boa mulher" na política da extrema-direita

A participação feminina na política institucional é autorizada de forma seletiva. Mulheres que entram nesse espaço, muitas vezes ligadas a partidos como o PSL (atual PL), o fazem com discursos antifeministas, mas ocupam posições conquistadas por movimentos feministas. A figura da "boa mulher" na política da extrema-direita deve ser feminina e heterossexual, defender o modelo de família tradicional e, mesmo ao abordar a violência contra a mulher, não o faz sob uma perspectiva feminista, podendo até culpar as vítimas.

Essas mulheres antifeministas servem como prova de que a extrema-direita não é contrária à participação feminina, apesar de essa participação ser limitada. Elas ajudam a definir quais formas de feminilidade são consideradas legítimas, excluindo mulheres que não se encaixam nesse modelo, como mulheres trans, que são constantemente atacadas. A "boa mulher" também é incentivada a defender uma maternidade que, na prática, muitas vezes não vivencia devido à sua atuação política, e não questiona a maternidade como algo compulsório.

Disputa pelo voto feminino e instrumentalização

A extrema-direita reconhece a importância do voto feminino, que compõe mais de 52% do eleitorado, e busca disputá-lo. A questão central, segundo Galetti, não é se as mulheres participam da política, mas sim quais mulheres podem participar, como devem fazê-lo e para quais projetos políticos seus votos devem ser direcionados. O antifeminismo se torna palatável, e mulheres são legitimadas na política institucional como defensoras de um modelo tradicional ameaçado.

Planos de governo frequentemente questionam a violência contra a mulher, mas oferecem respostas deslocadas da realidade sobre feminicídio, indicando a ausência de um projeto político consistente para lidar com o problema. Mulheres são transformadas em eleitorado estratégico, instrumentalizadas para fins políticos, recebendo em troca visibilidade e a sensação de poder. Essa disputa pela participação feminina na política está em curso desde 2018, intensificando-se conforme pautas femininas e LGBT+ avançam.

Aborto e autonomia feminina sob ataque

A dificuldade em transformar o aborto em debate político reside na disputa pela autoridade para falar sobre o tema, que é reduzido a uma discussão moral em vez de uma questão de saúde pública. A autonomia do corpo feminino e a dimensão da saúde pública são pontos cruciais, mas frequentemente ofuscados. Mulheres que se posicionam abertamente sobre o aborto, como Marina Silva e Benedita da Silva, enfrentam críticas, enquanto a experiência de Dilma Rousseff demonstra como sua condição de mulher e sua atuação política foram associadas a julgamentos morais, incluindo acusações relacionadas ao aborto e questionamentos sobre sua sexualidade.

O aborto é utilizado para deslegitimar mulheres em posições de poder, e a questão central deveria ser quem tem o direito de decidir sobre a reprodução e as consequências de negar esse direito. A negação desse direito interfere nas possibilidades de organização da vida, sexualidade, trabalho e participação social das mulheres. A memificação e a objetificação das mulheres na política, como ocorreu com Dilma, servem como mecanismos de deslegitimação e misoginia, reduzindo mandatos e propostas ao segundo plano.

A violência política de gênero tem tornado o espaço político hostil para as mulheres, levando a uma menor representação feminina em disputas majoritárias. As mulheres autorizadas a ocupar esses espaços são, em sua maioria, de extrema-direita, disseminando um modelo de feminilidade que contraria o progressismo e a ideia de uma sociedade desigual para mulheres, especialmente negras, lésbicas e trans. A autorização seletiva para ocupar esses espaços perpetua exclusões concretas.

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