Eliana Alves Cruz: da luta contra o burnout à consagração como escritora negra

Destaques
- •Eliana Alves Cruz, jornalista e escritora, narra sua trajetória de superação do burnout à conquista de prêmios literários como o Jabuti.
- •A autora destaca a importância de sua obra em resgatar a história negra no Brasil e a necessidade de maior representatividade no cenário literário.
- •Próximos passos incluem o lançamento de novos livros da coleção 'Crimes Coloniais' e a esperança de retorno do programa 'Trilha de Letras'.
A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz narra sua jornada de superação e consagração no mundo literário, marcada pela luta contra o burnout e pela profunda investigação da história negra no Brasil. Sua obra, que aborda temas como racismo e escravidão, tem recebido reconhecimento através de importantes prêmios, como o Jabuti e o Guimarães Rosa.
Aos 11 anos, Eliana já sonhava em ser escritora, mas a realidade profissional a levou ao jornalismo, onde trabalhou por mais de 20 anos em regime exaustivo. A virada ocorreu em 2009 e 2010, quando um quadro de burnout a impulsionou a dedicar-se à pesquisa para seu primeiro livro, Água de Barrela. A obra, que conta a saga de sua família descendente de africanos escravizados, venceu a primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira em 2015, incentivando-a a seguir a carreira literária.
Da pesquisa à consagração literária
A pesquisa para Água de Barrela foi um processo terapêutico e de autoconhecimento para Eliana. Ela mergulhou na história oral de sua família, coletou documentos e confrontou memórias, inclusive de uma tia-avó centenária. Essa investigação a levou a descobrir a história de famílias escravocratas como a Tosta, no Recôncavo da Bahia, e a desvendar aspectos da vida negra no Brasil.
A experiência jornalística de Eliana, com seu olhar investigativo e ceticismo, foi fundamental para aprofundar suas pesquisas literárias. Ela aplicou a técnica de "escovar a história a contrapelo", buscando o que estava oculto nas narrativas oficiais. Essa abordagem resultou em livros como O Crime do Cais do Valongo, que investiga a chegada de africanos escravizados ao Brasil.
Racismo, representatividade e o futuro da literatura
Eliana Alves Cruz destaca que o racismo e a escravidão são temas recorrentes em sua obra, mas ressalta que suas histórias são, antes de tudo, narrativas familiares universais. Ela critica a tendência de reduzir sua obra à questão racial, argumentando que isso apequena o leitor e ignora a complexidade das trajetórias humanas.
A escritora celebra suas conquistas, como o Prêmio Jabuti, mas aponta a estranheza de ser a primeira mulher negra a vencer o prêmio de Melhor Romance na 68ª edição. Ela defende que o reconhecimento não deve ser visto como cota, mas como um reflexo da qualidade da produção literária brasileira e um passo importante para a transformação social.
O futuro de sua obra inclui a coleção Crimes Coloniais, com o segundo livro já pronto para lançamento, e a esperança de que o programa Trilha de Letras, que apresentou na TV Brasil, retorne à programação.
Mensagem para jovens escritores
Para jovens escritores negros, Eliana Alves Cruz aconselha a persistência e a dedicação. Ela enfatiza a importância de usar o tempo livre para escrever, aperfeiçoar a técnica, buscar a crítica construtiva e encontrar a própria voz. Quebrar as resistências internas e a vergonha do próprio texto é o primeiro passo para consolidar a carreira literária.
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