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Barbeiro adapta atendimento para crianças com TEA e sensibilidade sensorial

25 de outubro de 2026
Barbeiro adapta atendimento para crianças com TEA e sensibilidade sensorial

Destaques

  • •Profissional desenvolve técnicas de dessensibilização e aproximação gradual para atender crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras sensibilidades.
  • •Adaptações incluem brincadeiras, uso de recursos sensoriais e mudança de local, visando reduzir o desconforto com barulhos e toques.
  • •Especialistas e famílias relatam o impacto positivo de encontrar profissionais que estabelecem vínculo e confiança com as crianças.

O barbeiro Renan Santana, com 20 anos de experiência, desenvolveu métodos de atendimento adaptados para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras sensibilidades sensoriais, que frequentemente enfrentam dificuldades com o corte de cabelo. O processo exige paciência, construção de confiança e respeito aos limites individuais, podendo levar dias para que a criança se sinta confortável.

A abordagem de Renan começa com uma conversa detalhada com os responsáveis para entender a história, as preferências e as dificuldades da criança. Com base nessas informações, ele organiza uma estratégia individualizada, utilizando brincadeiras e recursos para tornar o ambiente mais acolhedor. A dessensibilização é feita gradualmente, com toques leves na cabeça, uso de borrifador e até mesmo o som da tesoura próximo ao ouvido, para acostumar a criança aos estímulos.

Adaptações para o conforto infantil

Em muitos casos, o corte de cabelo ocorre fora do ambiente tradicional da barbearia, em locais onde a criança se sinta mais segura e distraída, como um corredor ou até mesmo em casa. Se a aproximação inicial não for bem-sucedida, Renan tenta novamente em outro dia, priorizando o bem-estar do pequeno cliente. Essa flexibilidade é crucial para construir a confiança necessária.

A médica Fernanda Wagner Fredo, coordenadora do Programa de Residência Médica de Neurologia Infantil do Hospital de Clínicas da UFPR, explica que as alterações sensoriais em pessoas com TEA podem tornar estímulos como o barulho da máquina de cortar cabelo e o toque na cabeça extremamente desconfortáveis, podendo gerar sofrimento.

“Aquele toque que, para uma pessoa que não tem disfunção sensorial, é algo que passa despercebido, para essas crianças pode até trazer uma sensação muito semelhante à dor”, afirma a médica. Ela ressalta que a sensibilidade varia entre os indivíduos, tornando essencial conhecer as necessidades específicas de cada criança.

Estratégias para famílias e profissionais

A preparação para o corte de cabelo pode começar em casa, com brincadeiras que envolvam o cuidado com o cabelo, como lavar bonecas ou acompanhar o corte dos pais. A colaboração entre família, profissionais de saúde e terapeutas que acompanham a criança pode otimizar as estratégias.

Entre as recomendações práticas estão:

  • Preparar por meio de brincadeiras: familiarizar a criança com a situação.
  • Levar um objeto de apoio: um brinquedo que proporcione segurança.
  • Explicar cada etapa: ajudar a criança a acompanhar o procedimento.
  • Adaptar os instrumentos: usar tesoura se o ruído da máquina for um problema.
  • Mudar o local: realizar o atendimento em um ambiente domiciliar ou em um tatame.

A médica enfatiza que, em caso de sobrecarga sensorial, é fundamental interromper a situação, acolher a criança e esperar que ela se acalme, em vez de insistir ou contê-la à força.

O impacto da conexão profissional

Encontrar um profissional com quem a criança estabeleça um vínculo de confiança é uma conquista significativa para as famílias. Renan relata casos marcantes, como o de um menino que precisou de 15 horas de atendimento, distribuídas ao longo de cinco dias, para se sentir confortável com o corte. Atualmente, os encontros com ele duram entre 30 e 40 minutos.

As mudanças positivas observadas pelas famílias vão além da barbearia. Uma mãe relatou ter conseguido lavar, pentear e acariciar o cabelo do filho após o atendimento, algo que antes era impossível. O retorno das famílias, com relatos de crianças que antes recusavam e agora permitem ou até gostam do corte, reforça a importância desse trabalho humanizado.

O que diz a pesquisa

Um estudo publicado em 2024 na revista Research, Society and Development, intitulado "Relato de caso de uma intervenção comportamental para adesão ao corte de cabelo em crianças com Transtorno do Espectro Autista", apresentou o resultado de uma intervenção com o intuito de aumentar a tolerância ao corte de cabelo em duas crianças com diagnóstico de TEA. Utilizou-se um procedimento de dessensibilização sistemática e reforçamento diferencial.

A intervenção adotada foi efetiva no estabelecimento do comportamento de adesão ao corte de cabelo para os dois participantes. O relato contribui com a literatura na transposição dos resultados derivados de pesquisa aplicada à prestação de serviço em análise do comportamento aplicada ao TEA, utilizando procedimentos menos invasivos para o aumento de adesão às atividades cotidianas de higiene pessoal.

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